Consumo gera discussões que transitam entre a ética médica e a obsessão pelo emagrecimento a qualquer custo

O desejo de perder peso em pouco tempo e, de preferência, com o mínimo de esforço, pode custar sérios danos à saúde e até levar à morte. Há quem ignore os riscos, mas há quem assuma conscientemente todos os perigos em nome do emagrecimento rápido.

Na internet, não faltam ofertas de dietas milagrosas e até remédios proibidos que podem ser facilmente encomendados. Gotas de HCG, sigla em inglês para gonadotrofina coriônica humana, hormônio produzido por mulheres grávidas, por exemplo, são oferecidas por preços entre R$ 87 e R$ 225, prometendo eliminar até dois quilos por dia. No rótulo do produto, escrito em inglês, uma mensagem alerta que o medicamento ainda não foi avaliado pela Food and Drug Administration (FDA), órgão do governo dos EUA que controla remédios e alimentos, equivalente à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Apesar das restrições científicas e legais, a mesma substância é usada com objetivo idêntico em consultórios médicos na forma injetável. É aí que a discussão passa da obsessão pela perda de peso a qualquer custo para a ética médica.

— Indicar remédio não aprovado para esse fim é uma infração ética e técnica de quem prescreve. É um uso ilegal, uma irresponsabilidade — diz o médico Cláudio Mottin, diretor do Centro de Obesidade e Síndrome Metabólica do Hospital São Lucas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

Não existe “milagre”

Na avaliação do médico, o uso de remédios para emagrecer tem restrições até se forem regulamentados, caso da sibutramina, que teve a licença mantida em 2011, enquanto outros emagrecedores foram retirados do mercado pela Anvisa. Primeiramente, porque é preciso diferenciar a necessidade clínica do medicamento, no caso de obesidade em nível grave e quando já se esgotaram as alternativas convencionais, da mera insatisfação com os “quilinhos a mais”. Mottin enfatiza:148248501

— O remédio representa apenas 20% do resultado. Para perder peso, é preciso manter o tripé reeducação alimentar, atividade física adequada e mudança de estilo de vida. Não existe milagre.

Nos Estados Unidos, há registros de embolia pulmonar em mulheres que usaram HCG para emagrecer. Na semana passada, a Polícia Civil gaúcha passou a investigar a possibilidade de que a mesma substância possa ter contribuído para a morte da secretária estadual de Políticas para as Mulheres, Márcia Santana, 35 anos, encontrada morta no banheiro de sua casa no dia 13.

Inclusive no tratamento de fertilidade, há restrições ao uso de HCG em pessoas com doenças cardíacas, renais, hepáticas, epilepsia, asma e antecedentes de câncer, pelo que se lê na bula do remédio. O ginecologista Marcos Höher, especialista em medicina reprodutiva, reitera que, diferente da dieta, em que são feitas três aplicações diárias durante 26 dias, no tratamento de fertilização o HCG é aplicado em dose única e em quantidade comprovadamente segura. Quanto ao suposto efeito na perda de peso, o alerta às pacientes é justamente o contrário.

— Em geral, os hormônios retêm líquidos e, por reterem líquidos, podem gerar um discreto aumento de peso — explica Höher.

Faltam evidências científicas

Além do HCG, também o Victoza, aprovado para diabetes, vem sendo utilizado para perda de peso, embora esse uso ainda esteja em fase de estudos clínicos. É o chamado off-label, quando um medicamento é administrado de maneira diferente do que consta na bula, tanto em dosagem quanto em intervalo ou doença a ser tratada.

Os riscos dessa utilização englobam o surgimento de reações adversas não previstas ou não relacionadas anteriormente ao medicamento, conforme a farmacêutica Clarissa Ruaro Xavier, que atua no Centro de Informações sobre Medicamentos do Rio Grande do Sul.

— Se não é aprovado, é porque não existem ensaios clínicos que comprovem a sua eficácia e segurança para tal utilização — reforça.

É o caso do HCG para emagrecer. A endocrinologista do Centro de Obesidade da PUCRS Jacqueline Rizzolli comenta que estudos feitos com o uso do hormônio e dietas com menor restrição calórica não comprovaram nenhuma eficácia. Ou seja: o que emagrece é a dieta e não o medicamento. Porém, só as 500 calorias já representariam sério risco à saúde.

— É preciso desconfiar de tratamentos que prometem uma redução de peso superior a 500 gramas por semana. Dieta com menos de 800 calorias só pode ser feita em casos muito indicados e com rigoroso acompanhamento médico, pois pode causar arritmia, desequilíbrio hidroeletrolítico, cetose e acidose metabólica, podendo levar à parada cardíaca — enumera.

Outra ressalva feita pelo endocrinologista Rogério Friedman, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) é quanto à oferta do HCG na forma de cápsulas:

— Nas indicações formais para fertilidade, o uso é injetável. Muitos hormônios, ao serem ingeridos, são degradados e se tornam inócuos.

Cardiologistas costumam ser reticentes tanto com emagrecedores quanto com hormônios, por conta dos possíveis efeitos adversos ao sistema cardiovascular.

— O HCG, diferente do estrogênio, usado em terapias de reposição hormonal, não tem risco cardiovascular comprovadamente associado, mas aparentemente não funciona para emagrecer — cardiologista Daniel Souto Silveira, diretor de Comunicação da Sociedade de Cardiologia do Rio Grande do Sul.

Como o HCG age no organismo

— O HCG (Gonadotrofina Coriônica Humana) é um hormônio produzido naturalmente no organismo feminino durante a gestação.

— Ele se forma nas células da placenta de sete a 10 dias após a ovulação e penetra no endométrio. Nos tratamentos de fertilidade, o HCG é injetado, por via subcutânea, para estimular a ovulação.

— O protocolo proposto pelo médico britânico Albert T. W. Simeons, em 1954, sugere que o HCG “engana” o cérebro, fazendo-o acreditar que a mulher está grávida. Com isso, o hipotálamo ordena que a gordura armazenada no corpo seja queimada. No caso de uma gravidez real, essa gordura nutriria o bebê.

— Como o uso do HCG para emagrecer é associado a uma dieta muito restritiva, o organismo queimaria maior quantidade dessa gordura acumulada para gerar energia, o que levaria à perda de peso.

— Entre os efeitos colaterais mais graves da dieta com menos de 800 calorias estão a arritmia cardíaca e a acidose metabólica (excesso de ácido no sangue), que pode levar à parada cardíaca.

Fontes: ginecologista Marcos Höher e endocrinologista Jacqueline Rizzolli

dsc325625736711Farmácia do emagrecimento

HCG
— Indicado para o tratamento da fertilidade
— Não recomendado para tratamento da obesidade

Não há evidências científicas que validem o uso do HCG para emagrecimento, nem aprovação pela Anvisa nem por agências reguladoras da Europa e dos Estados Unidos. O hormônio tem uso permitido para tratamentos de fertilização. A dieta do HCG foi proposta pela primeira vez em 1954, pelo médico britânico W. Simeons, e voltou a ser difundida em 2007, com a publicação do livro HCG weight loss cure guide: a supplemental guide to Dr. Simeon’s HCG protocol. Clínicas médicas de Los Angeles passaram a oferecer o tratamento e kits de injeções passaram a ser vendidos ao custo de US$ 1 mil para serem aplicadas em casa. Em 2011, a moda pegou no Brasil, com adesão de celebridades e reportagens em revistas femininas.

Victoza
— Indicado para tratamento do diabetes tipo 3
— Não recomendado para tratamento da obesidade

O remédio, que é injetável, é aprovado para o tratamento de diabetes. Como foi identificada perda de peso entre os pacientes diabéticos, ele passou a ser utilizado para perda de peso, embora esse uso não esteja regulamentado e estudos clínicos ainda estejam em andamento. O fabricante do Victoza afirma apenas que o remédio é usado para tratar diabetes mellitus do tipo 2 quando dieta e exercícios sozinhos não são suficientes para o controle da glicemia. Não há referência, na bula, à perda de peso.

Topiramato
— Indicado para tratamento da epilepsia e enxaqueca
— Não recomendado para tratamento da obesidade

Associada a fentermina, um tipo de anfetamina, o topiramato se mostrou útil no combate à compulsão alimentar em estudos produzidos nos Estados Unidos, mas a FDA requisitou mais pesquisas para aprovar o uso comercial da combinação. No Brasil, o medicamento tem liberação para tratar epilepsia e enxaqueca. Como as anfetaminas estão proibidas no país, o uso combinado da medicação ficaria impedido.

Sibutramina
— Indicado para tratamento da obesidade
— Não recomendado para uso por cardíacos

Atualmente, o medicamento aceito pela Anvisa para o tratamento da obesidade é a sibutramina. Chegou a se criar a expectativa de que o remédio tivesse o registro suspenso, a exemplo do que ocorreu em outubro de 2011 com a anfepramona, o femproporex e o mazindol, inibidores de apetite. Na ocasião, o uso da sibutramina foi restringido e a Anvisa deu início a um estudo, cujo relatório deve ser votado na próxima semana pela diretoria. O presidente da agência, Dirceu Barbano, já adiantou que o registro deve ser mantido.

Orlistat
— Indicado para tratamento da obesidade
— Não recomendado para mulheres amamentando ou pessoas com histórico de problemas cardíacos

Vendido com o nome comercial Xenical, o orlistat também é permitido pela Anvisa. De acordo com a bula do remédio, ele é indicado para o tratamento a longo prazo dos pacientes com excesso de peso e para obesos, em conjunto com uma dieta levemente hipocalórica. O medicamento atua no intestino, com efeito na absorção de gordura.

Fonte: http://zh.clicrbs.com.br/rs/vida-e-estilo/vida/noticia/2013/03/o-risco-do-uso-de-medicamentos-aprovados-para-outros-fins-na-busca-pela-perda-de-peso-4090423.html

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